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/Imaginação, que rima com realização

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/Alguém buzinava nervosamente na avenida movimentada lá fora. O barulho era aleatório e cortante, irritante e incansável. A minha vontade era de largar A Dança do Dragões de lado, atravessar o quintal em direção ao meu arsenal de armas medievais, voltar com uma cimitarra de cameleiro árabe do século XV em punho, e seguir obstinadamente, guiado pelo som retumbante e indecente da maldita buzina, com sangue nos olhos, e finalmente cortar a mão do sujeito que buzinava. Uma pena aqui em casa não ter nenhum arsenal de armas medievais no fundo do quintal. Só me restava odiar a pessoa que buzinava e buzinava. E em meio a essa raiva impotente fiquei tentando imaginar o rosto do sujeito que apertava o troço. Um maldito caminhoneiro, muito gordo e muito suado. Pensei. Que teve uma infância penosa, que sofreu bullying durante todo o ensino fundamental e que resolveu não cursar o ensino médio por causa dos atos de violência física e psicológica contra sua pessoa. E que em algum momento, depois de vender verdura na feira com sua mãe por um anos, e de ajudar o pai pedreiro a levantar paredes, reverter muros e construir lages, virou caminhoneiro. Mas isso depois de seus pais morrerem em um acidente de ônibus na BR-116, o veículo capotara por causa da chuva forte e um desnível na pista. Quanto mais eu recriava na minha cabeça a desgraça de vida do sujeito que apertava a buzina, mais a vontade de ir lá fora cortar sua mão fora desvanecia. E agora, eu só queria ir lá e dizer que tava tudo bem, que ele poderia apertar a droga da buzina até amanhã se essa fosse sua vontade, depois eu daria um tapinha em suas costas e voltaria para dentro de casa envergonhado por ter me irritado com uma pessoa que teve uma vida tão sofrida e adversa, e que buzinava ininterruptamente provavelmente com razão.

A minha cabeça a essa altura já estava prestes a explodir e espalhar miolos temperados com sangue no meu lençol do Mickey que tanto gosto. Já não fazia ideia de quanto tempo fazia que a buzina… buzinava. Enlouqueci de vez.

Corri em direção à rua, o portão de alumínio estava trancado. Dali o volume da buzina buzinando era ainda mais inquietante; entrava pelos ouvidos e saía serpenteando pelo meu corpo, cutucando cada órgão, chutando cada nervo, arranhando cada tecido, sapateando na minha alma. Desmaiei. Estatelei-me no chão de cimento.

Meus olhos sonolentos piscaram em câmera lenta uma, duas, três vezes. Depois de esfregar o sono dos meus olhos com as costas da mão, notei que a cama em que eu me encontrava deitado fazia um barulho estranho e cheirava esquisito. Duas velas queimavam quase no fim em um castiçal posto do outro lado do que parecia ser um quarto. Sentei-me na cama de palha. “Você teve outro daqueles desmaios”, uma senhora disse ao adentrar o cômodo segurando uma caneca de madeira que soltava uma fumaça fina que cheirava a chá, o aroma era tão embriagante e palpável que fez meu estômago revirar, enjoado, nauseado, com a proximidade gradual da bebida dando um passo atrás do outro em minha direção. A senhora enrugada, com um sorriso gentil, testa franzida de preocupação e com o copo de chá na mão, era minha mãe. Nunca vira ela antes. Ela estendeu a caneca em minha direção e quando segurei-a com as duas mãos como quem aperta o pescoço de alguém no ato de um estrangulamento assassino, queimei minhas mãos; o copo quicou uma, duas, três vezes no chão, e o conteúdo verde aromático se esparramou no piso de madeira velha e farpenta. A senhora minha mãe saiu irritada do recinto me deixando na companhia do castiçal com as velas de cera que estavam quase no fim e de uns martelos e ferramentas que eu não conhecia que se encontravam espalhadas no canto do quarto. Obviamente, assim como você, eu não estava entendendo nada.

Fui cambaleando sem rumo pelos cômodos observando tudo atenciosamente, estupefato, curioso. Me belisquei uma, duas, três vezes. Mas aquilo não parecia ser algum sonho. Eu estava no que parecia ser uma cozinha da idade média. Senti alguém tocar meu ombro. “Aleister meu filho, preciso de ajuda na ferraria. Trabalhadores se amontoam em nossa porta querendo reparos em suas ferramentas, Vossa Majestade ordenou a construção de paredões em volta da torre que fica no lado norte do Castelo Azul para substituir a paliçada de madeira. E aquele mercenário mal encarado da semana passada quer sua armadura reparada para amanhã, antes do anoitecer”. Quando o senhor acabou de falar, eu só consegui balançar a cabeça fazendo sinal de positivo e segui-o. O homem era corpulento, vestia trapos, tinha ombros e costas muito largos, braços muito musculosos e cada parte do seu corpo pareciam estar sujos de carvão misturado com suor. Tudo que o meu pai tinha dito era verdade. Muita gente se amontoava no pequeno salão. Um aprendiz se encontrava debruçado sobre uma forja, talvez limpando o tanque ou alimentando o fogo com mais carvão. Outros dois trabalhavam nas bigornas, martelando aqui e ali, moldando, reparando armaduras e ferramentas. O barulho de aço batendo no aço com violência me fez lembrar o barulho incessante da buzina. Só que as marteladas eram metódicas, coordenadas, disciplinadas, não aleatórias. “Aleister, precisamos de mais carvão”, Rugiu meu pai, debruçado sobre a fornalha.

Não sabendo o que fazer, abri caminho entre as pessoas que se amontoavam no pequeno salão. Um balcão separava a área das forjas dos clientes, mas mesmo ali com certa distância da quentura da fornalha, todo mundo suava. E fedia. Fedor, que rima com calor.

E enquanto abria caminho por entre aqueles trabalhadores, cavaleiros e mercenários, comecei a me sentir meio zonzo.

Quando finalmente despontei na rua, minha cabeça girava como um carrossel de parque de diversões que alguém se esquecera de apertar o botão para cessar o giro. Pessoas falavam umas com as outras em uma língua que eu não conhecia. A rua era de terra, esburacada, com poças de lama aqui e ali, castigada pelas ferraduras dos cavalos, rodas dos carroções, e por pés de gente. Quase tombei ali mesmo na terra, no meio da rua, por causa da tontura repentina.

Do outro lado havia uma estalagem de três andares, uma taverna do lado direito e outra ferraria no lado esquerdo. Lojas, bordéis, vários comerciantes com banquinhas improvisadas vendendo os mais diversos produtos; verduras, frutas, carnes, peles, ervas. Vi tudo isso e muito mais antes de finalmente tombar no chão como o ônibus que levava os pais do caminhoneiro pela BR-116. Acabei sendo pisoteado por um cavaleiro estabanado que montava um corcel cinza.

Acordei agora pouco com uma dor de cabeça infernal. Aleguei para meus pais (medievais) que havia perdido a memória, e apesar do cavalo não ter me pisado na minha cabeça eles pareceram acreditar. Me aproveitei dessa desculpa da memória que era só meio mentira, e comecei a fazer perguntas sobre tudo. A senhora minha mãe respondia como podia, mas eu queria mais, particularmente depois da Sra. Aleister falar sobre magos, elfos, grifos e artefatos que supostamente continham propriedades mágicas. Ela falou sobre uma ilha remota que abrigava dragões (vejam só, DRAGÕES!) e que fora selada magicamente havia seis séculos…

Meu pulso ainda dói muito. Maldito cavaleiro estabanado. Fui pisado mais gravemente nas costelas e quase tive minha munheca quebrada… Por isso, vou parar por aqui. Quando eu estiver cem por cento talvez eu compartilhe com vocês sobre essa loucura toda. Ou acabe ficando louco sozinho, bebendo do cálice mágico da minha imaginação com a velocidade com que um pinguço bebe um bom vinho. No fim, talvez eu esteja somente – e realmente – bêbado. Talvez da próxima vez em que eu acordar, estarei deitado na minha cama de molas sob o meu lençol do Mickey que tanto gosto, com o A Dança dos Dragões jogado do lado de lá da cama. Ou talvez, da próxima vez em que abrir os olhos eu ainda me chame Aleister. Tenha 16 anos. Seja um filho de um velho ferreiro corpulento renomado e de uma senhorinha com um sorriso gentil.

/Azul ou Vermelho

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Eu só tinha ensinado umas coisinhas, o resto ela aprendeu sozinha mesmo. É
impossível a gente ensinar tudo a alguém. – O apanhador no campo de centeios

/A minha vontade era de sacudir ela pelos ombros e chamá-la de burra, lesada, broca, palhaça e por fim perguntar ‘que porra que tu tá fazendo da tua vida?’, mas como provavelmente ela ignoraria os xingamentos e responderia a minha pergunta com algo como ‘sei lá!’, resolvi não falar nada, só balancei a cabeça como quem diz ‘não, você tá fazendo isso errado’. Acho que ela nem chegou a ver o meu balançar de cabeça maroto, a trocinha sequer me olhava, isso me deixa maluco – balançar a cabeça marotamente e ninguém ver. A menina tem tudo do bom o do melhor, é até espirituosa a bichinha, e bonitinha, tem uns peitões e tudo, mas escutar os outros não é muito a dela, nem reparar no balançar de cabeça preocupado dos amigos. Por isso eu não gastava nem energia. Não sei ser amigo de gente que só quer ter amigo pra chatear, pra encher o saco, ou desabafar sobre coisas nada a ver.

Mas ela é muito boazinha quando não está fazendo coisas erradas ou aplaudindo quem não merece ou coisa parecida, juro. Acabei por reunir forças para tentar ajudá-la.

– Bianca, outro dia estava tomando um café, escutando um funk – porque alguém tinha me enviado um link, só por isso, juro – e pensei: ‘e se ao invés de gente humana fossemos pássaros?’

– Mas que…

– Tipo, um mundo em que todo mundo nascesse como pássaros, toda porcariazinha que nascesse seria um pássaro azul, tipo aquele do twitter. Os outros animais, insetos, plantas e tudo existiriam como existem hoje, mas no lugar de uma ruma de humanos seria uma ruma de pássaros azuis, tipo aquele do twitter.

– E eu aqui achando que você ia me ajudar…

– Pois bem, todo mundo é azul, exceto os que são VERMELHOS, sim, vermelhos! São as exceções, são raros pra chuchu. O que quero dizer é que no mundo onde todos são pássaros azuis e exatamente iguais, os vermelhos são os diferentes, os inteligentes, espirituosos, essas coisas, sabe?

– Sei

– O que eu quero dizer é que a droga do imbecil do teu namorado é mais um desses pássaros azuis, e que você é muito boazinha, até bonitinha às vezes, talvez seja até uma passarinha vermelha, nunca se sabe…

– Às vezes!?

– Sério que tu só escutaste o ‘Às vezes’? Talvez você não seja uma passarinha vermelha no final das contas – ela fez cara de triste, acabei ficando com pena e voltei a falar com uma voz mais macia que bundinha de bebê que tem bunda macia – porque tem uns com a bundinha cheia de perebinhas, não se enganem. Olha Bianca… Você dando moral pra esse cara é comparável com um pássaro vermelho procurando desesperadamente por um balde de tinta azul para banhar-se e ficar azul que nem todo mundo, só pra ser igual a todo mundo e sentir que faz parte de algo. Você quer ser só mais uma passarinha azul, igual a todo mundo?

– Não.

Já estava de saco cheio de falar de porcaria de pássaros e me calei. No fim das contas acho que acabei ajudando a lesada. Até que depois de alguns segundos com cara de pensativa ela me olha nos olhos e pergunta:

– Tipo, eu sou uma passarinha vermelha, é isso que você quis dizer?

Aí eu não aguentei! Fiquei todo na expectativa da sebosa falar algo espirituoso, ou fazer uma observação inteligente sobre a porcaria da historinha dos pássaros… algo como ‘E se eu nascesse daltônica e não soubesse diferenciar as cores, aí não saberia de que cor eu era e viveria na linha tênue de ser e não ser algo, aí eu teria liberdade de ser de qualquer cor’ mas não! Esse negócio de esperar sempre o melhor dos outros não funciona mesmo, pelo menos não com gente como a Bianca. A minha vontade era de me levantar e chutar a cabeça dela – várias vezes -, mas é tão boazinha a bichinha que acabei me levantando, e  (1) pedi pra ela se levantar e (2) dei um daqueles abraços de urso, daqueles bem fortes mesmo, daqueles que a gente quando tá nessa idade – quinze anos – adora, porque além de consolar a pequena (4) ainda tiramos uma casquinha. E eu adoro tirar casquinha, nem que seja só para tirar casquinha.

Saí da casa dela me achando um ótimo amigo e voltei em pensamento para aquele mundo, sabe, o dos pássaros e tudo. Imaginando que se fosse um deles sairia voando por aí desesperado atrás de um espelho ou coisa parecida a fim de ver a porcaria da cor meu reflexo.

/Menina bonita do McDonald’s

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– Olá… Fernanda!?
– Oi…
– Você tem um sorriso muito bonito
– Obrigado, mas o que você quer?
– Aquele ali que vem com duas fatias de bacon, obrigado.

—-

– Olá Fernanda!
– Oh… Oi.
– É que não consegui parar de pensar em você –
– Vai querer o mesmo de ontem? O que vem com as duas fatias de bacon?
– É… Sim, obrigado.

—-

– Olá Fernanda.
– Oi.
– Vou querer o mesmo da semana passada. O que vem com duas fatias de Bacon, obrigado.

—-
– Oh… ei!
– Fernanda?
– Você nunca mais apareceu por lá
– Pois é, já estava me sentindo quase obrigado a pedir sempre o que vem com duas fatias de bacon. E o que eu sempre quis nunca tinha no cardápio.
– E o que você quer?
– E você era quase sempre fria e monossilábica, até teu sorriso enfeou, ficou meio mecânico, sabe? Sei que ali você tá trabalhando –
– Mas o que você quer?

Aproximei-me e puxei Fernanda pela cintura, e com o nariz dela quase tocando no meu, com as lentes dos óculos dela quase tocando nas lentes do meu, senti uma felicidade instantânea correr pelas minhas veias, como se aquela sensação fizesse parte da composição do meu sangue… e quando ela sorriu como daquela vez, como da primeira vez que a vi sorri, meus joelhos vacilaram e foi preciso muito esforço para conseguir manter-me de pé e finalmente aproveitar o momento como deveria.

Só ali, entre beijos e sussurros, consegui dar minha resposta.

– O que eu queria era aquele com duas fatias de queijo, com ovos, tomate, alface, bacon e presunto; mas nunca tinha, Fernanda.

/Um dia

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/Queria dizer que quando estou sentado ao seu lado meu coração bate forte, mas não posso, ainda não te encontrei. Queria poder chegar em casa depois de um dia corrido e descansar em seus braços – e você se cansar nos meus. Que juntos pudéssemos viajar, não para fugir de algo, não por vaidade, não para sair de um lugar e chegar em outro, mas para contemplar o infinito lá fora com os corações (e olhos) curiosos, entusiasmados. Sem amarras.

E um dia poder revelar que quando adoto aquela minha expressão de quase suficientemente corajoso, é porque reprimo um beijo que quer saltar dos meus lábios e se juntar aos seus.

E em algum momento poder sugerir que envelheçamos juntos.

Mas não sei como, ainda não te conheço.

Passar por bons e maus momentos, ter uma vida contigo que não seja minha nem tua, uma vida para chamar de nossa… Queria ser metade, e que você fosse a outra – só pelo clichê. E que lá na frente, bem velhinhos, bebendo um chá, escutando o canário cantar, poder olhar nos teus olhos e ver as memórias que guardei no fundo dos meus.

Ah quando eu te encontrar…

/Você

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/Pensei em ligar, mas a dor nos meus ouvidos estava insuportável. Pra vocês que nunca sentiram dor no ouvido, é tipo dor de dente, só que no ouvido.

Decidi mandar uma sms. O tracinho piscando na tela sem nada escrito me desafiava, zombava das minhas pretensões. Fui vencido pelo tal tracinho pixelizado e joguei o telefone longe, em cima da cama, pra não estragar, custava caro.

Foi quando mesmo desnorteado pela dor insuportável, lembrei que você morava no outro quarteirão. Levantei-me cheio de preguiça, mas com um brilho nos olhos que eu não podia ver, mas sentia. E aquilo bastou.

No caminho notei que eu estava nu, digo, não andava nu pelo meio da rua… Apenas seguia em direção a sua casa sem nada em mente, desarmado, sem estratégias, sem uma fala bonita premeditada. Nu.

Ao se aproximar de seu portão, a dor insuportável pareceu migrar para o meu peito. Pra vocês que nunca sentiram dor no coração, é tipo uma dor de dente, só que no coração. De repente o portão se abriu e você saiu. As dores que me assolavam sumiram e meus sentidos se aguçaram de forma genuína para contemplar tua presença. Senti repulsa de mim mesmo ao lembrar que cogitei trocar aquela experiência de te ver em carne osso vindo em minha direção, por ligações e sms’s sem calor, sem brilho no olho.

E senti uma paz, uma alegria… Se os poros do meu corpo fossem pequenos emoticons atômicos eles estariam todos sorrindo 🙂 marotamente 🙂

No fim, você não era coisa da minha cabeça, você é essa coisa bonita, relaxada, leve, livre.

Real.

/Saber sem saber

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/Fui até o mundo querendo enxergar uma gama de nuances variados e abundantes,
Mas lá só encontrei escassez de cores, e um cinza predominante
E quando havia gente, era igual à outra. Voltei, sentei no chão frio e me pus a meditar
Como se isso fosse adiantar. Mas sabe-se lá!

Mesmo sem saber como, sem saber porquê, queremos melhorar
Mesmo sem saber o que é melhor
Mesmo sem saber de nada

A gente tenta, aguenta, aparenta, desiste
Ignorância que abraça e quase nos aconchega, então a gente senta e assiste
Mas não parece certo, mesmo que não saibamos direito o que é certo
Seguimos sendo isso e aquilo, ou achamos que somos, logo, somos
Quando no fim da estrada que conhecemos sem saber como, sabemos
Que somos energia instável, impermanente, volátil, incandescente e inquieta

Que se apega e larga, que prende e liberta
Que é condicionada com nossa permissão a achar que somos sólidos, quase eternos
Mas no fim da estrada que conhecemos sem saber como, sabemos

/Ela

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/Quando eu disse que você era como uma voz bela e incomum, daquelas que a gente escuta e não entende muito bem por ser tão singular, mas que nos arrebata e intriga da melhor e mais misteriosa forma que existe, você sorriu e achou aquilo tudo muito irônico, visto que não consegue cantar qualquer coisa por mais de dez segundos sem desafinar.

Quando te falei baixinho e meio hesitante que achava tudo em você meio viciante, entorpecedor e envolvente, você devolveu um “o que? não te escutei direito”.

Quando quis pintar um quadro teu e pedi para que ficasse de estátua por alguns minutos, você abriu mão de sua mobilidade graciosa e ficou lá paradinha. Fiz papel de bobo já que não consegui reproduzir sequer um traço, um nuance seu. Me senti menos bobo quando você viu a tela em branco e sorriu complacente, como se o que existia nela desenhada tivesse ganhado vida e estivesse ali na minha frente. Sorrindo.

Quando você gritou histérica pedindo para eu matar a ‘barata voadora que voa’ só consegui te abraçar e dizer ‘tá tudo bem, eu não vou deixar ela fazer nada de mal pra você’ e quase choramingando, com os cabelos assanhados e com o rosto mergulhado em meu peito você solta ‘mas cuidado, ela voa…!’ e como uma ninja, pisou quase inconscientemente na barata. E de novo (Desta vez bem consciente do que estava fazendo). E uma terceira vez, só pra se certificar.

No começo do fim me dei conta que você era tudo aquilo, e nada daquilo. Que era um privilégio te ter por perto. Que a liberdade tá aí pra todo mundo, mas poucos entendem ou sabem lidar com ela. Então, obrigado, por se entregar da maneira mais nobre e sincera. Então, obrigado, por me mostrar que as identidades que criamos para nós mesmos não passam de configurações transitórias, passageiras. E que a pessoa mais importante da nossa vida dificilmente será a pessoa mais importante da nossa vida por toda vida. Então, obrigado, por ser. Assim.